segunda-feira, 2 de junho de 2014

Importante: não é possível agora dar uma resposta definitiva sobre essa questão, tanto pela sua complexidade quanto por ser recente na experiência humana. A discussão sobre a construção da esfera pública na era digital assume centralidade cada vez maior nas pesquisas acadêmicas. A precoupação com a mass media que esteve muito presente nas últimas décadas é acrescida dos meios digitais.

Esfera Pública
A esfera pública é um espaço comum em que, supostamente, os membros da sociedade se encontram através de uma variedadede meios – imprensa, electrônica e também encontros face a face –para discutirem assuntos de interesse comum e, deste modo, serem capazes de formar a seu respeito uma mente comum. Esta mente comum é uma visão reflexiva, emanando do debate público, e não apenas a soma de algumas concepções presentes na população.
Constelação deespaçoe comunicativos que permitem a circulação de ideias, informações, debates e a formação da opinião pública.
Esses espaços, nos os meios de comunicação de massa e, mais recentemente, as mídias interativas figuram proeminentemente servem para facilitar as trocas entre os cidadãos e os detentores do poder na sociedade( fala-se em política).
Só se todas as discussões dispersas forem encaradas pelos seus participantes como reunidas numa grande permuta é que tem sentido falar em opinião pública.
Há condições objetivas para isso: internas- as discussões fragmentadas locais devem se referir umas às outras; externas: condições materiais para que as discussões alcancem a esfera pública (meio impresso, meio televisivo, meio digital).
Opinião pública: só existe a partir de ações comuns.
Ações comuns são mais do que ações convergentes, ou seja, ações em que o objeto de consciência é o mesmo por acaso, não por comum acordo.
A esfera pública transcende espaços tópicos. Ela agrupa esses espaços em um espaço de não-assembleia. Espaço metatópico (espaço comum não local).
Tais espaços são, em parte, constituídos por compreensões comuns; isto é, não são redutíveis a esses entendimentos, mas não existem sem eles.
Géneros novos, sem precedentes, de espaços exigem compreensões novas e sem antecedentes. Assim acontece com a esfera pública.
O que há de novidade na esfera pública não é a metatopicalidade. Igreja e Estado já eram espaços metatópicos. As características que fazem da esfera pública algo novo (XVIII) são:  a sua identidade independente do político (existe um lugar para se estar, mentalmente, fora da política, a partir do qual poderia julgar sua ação e sua prática. Este é o que se reflete nos novos modos de imaginar a sociedade, a dizer, a dimensão econômica e a esfera pública.) e, em segundo lugar, a liberdade essencial aos direitos para cuja defesa existe a sociedade.
Opinião pública: condições incesssantes de legitimidade.
A esfera pública éum espaço de discussão que, de forma muito consciente, se encara como existindo fora do poder. Supõe-se que é ouvida pelo poder, mas não é, em si mesmo, um exercício de poder.
Por outras palavras, com a moderna esfera pública, desponta a ideia de que o poder político deve ser fiscalizado e vigiado por alguém de fora.
“Num país livre, todo o homem pensa que ele se deve preocupar com todos os assuntos públicos”.- Burke.
http://www.lusosofia.net/textos/taylor_charles_esfera_publica.pdf
Na última década, estudos esforçaram-se por atender as novas necessidades de compreensão sobre a esfera pública, perguntando-se se a Internet impactaria- ou já impacta-a conformação da esfera pública, e, se já impacta, quais são as características desse impacto.
Essa discussões foram acompanhadas, inevitavelmente, do consenso internacional de que a democracia vive tempos difíceis; mais especificamente, a esperança de que a Internet seria responsável por criar um ambiente mais democrático.
A transformação do paradigma dos meios de comunicação de massas acarreta mudanças assinaláveis em termos das práticas midiáticas e do papel de cidadão / consumidor / produtor. Os novos media, em particular a internet, colocam novos desafios teóricos, metodológicos e práticos à constituição de uma esfera pública digital. Os espaços públicos convencionais de discussão são confrontados com diversas formas de socialização, com organizações em rede e com novos canais de disseminação e troca de informação que colocam ‘velhas’ questões em termos de poder, regulação, cidadania, participação, auto-expressão e identidade.
O fato de a internet colocar à disposição dos utilizadores uma série de novas ferramentas não significa que estas sejam utilizadas para uma cidadania mais participada ou para uma capacitação dos novos produtores de conteúdos na rede.
Formas organizacionais estruturais da sociedade, nomeadamente os midia mainstream, continuam a ser agentes centrais de comunicação e informação, assim como os principais produtores de conteúdos consumidos online.
A Internet está inserida num contexto de desestabilização do sistema político de comunicação. Essa desestablização, no entanto, pode significar uma mudança positiva, na medida em que extende e pluraliza a esfera pública.
A teoria democrática clássica  compreende que a deliberação é fundamental para a existência da vida democrática. Portanto, é necessário que os processos interacionais de discurso encontrem o máximo de liberdade possível.( aqui deve-se lembrar de censura, concentração de poder e da propriedade dos meios de comunicação, da relação política em que se envolvem as empresas de comunicação).
Com o advento da Internet a interação cívica dá um grande passo histórico passando para o online, e o caráter expansivo da esfera pública se torna cada vez mais acentuado.
É preciso reconhecer que as categorias de representação e interação misturam-se. Nós tendemos a comprrender a comunicação ou como um processo "um para vários"(mass media) ou um para um (conversa). Na Internet essa distinção se desfaz.
Desestabilização da comunicação política:
-O crescimento massivo de canais de mídia, junto a mudanças nos formatos de organização da informação; o embaraçamento e hibridização de gêneros; a falta de distinção entre jornalistas e não-jornalistas.
-O aumento do número de "mediadores políticos", incluindo o crescimento massivo da profissionalização da comunicação política( especialistas, consultores, que muitas vezes têm um papel mais decisivo do que o do jornalista na criação de uma verdade comum).
- A cacofonia que emerge dessa abundância midiática e tantos atores políticos e sociais.
- A indiferença e a falta de engajamento crescenteentre os cidadãos.
Essa desestabilização é compreendida de formas antitéticas:
Perspectiva positiva - tendência do aumento da variedade de vozes políticas, criação de novas formas de engajamento. Heterogeneidade cultural pode sugerir dispersão e aberturas que significarão ganhos para a democracia.
Perspectiva negativa -no entanto, essas dispersão e aberturas podem significar também o enfraquecimento de eficácia política e a dificultação da governança. As forças centípetas do capital privado atuam sob a ordem neoliberal, desenhando o poder fora das arenas políticas tradicionais por uma variedade de mecanismos e, por consequência, constringindo e enfraquecendo a democracia.
Internet: "vanguarda" da esfera pública, o domínio onde os mais importantes avanços ocorrem.
Perspectiva estrutural (econômica): seu desenvolvimento é rapidamente direcionado para a comercialização intensificada que caracteriza o modelo da mídia tradicional. É elemento integrado na dinâmica capitalista global.
A lógica de mercado junto aos aparatos legais emergentes e o ímpeto das restrições políticas servem para constringir a extensão e as formas de representação para propósitos cívicos de um modo que lembra o modelo da mídia tradicional.
Além disso, a Internet é usada para fins não políticos muito mais do que para fins políticos.
Os tipos de interação que nela ocorrem podem ser considerados manifestações da esfera pública apenas em grau diminuto. A deliberação democtática é ofuscada pelo consumismo, entretenimento e discussões não- políticas.
Paradoxo: ao mesmo tempo que a Internet já é parte integrada do sistema político de comunicação é usada para desafiar as estruturas de poder vigentes.
Mesmo os esforços dos governos mais autoritários de restringir os usos democráticos da Internet são ineficazes. O papel subversivo da Internet não pode ser subestimado (lembrar da Primavera Árabe.).
Hoje, o maior desarranjo entre a comunicação na esfera pública e as estruturas institucionais para a tomada de decisões encontra-se no âmbito global. Fóruns transnacionais, mobilização de opinião, tudo isso é evidente na Internet; já os mecanismos de transformação da opinião em nível global em decisões e políticas são extremamente limitados. Embora já possamos ver o contorno de uma sociedade civil global, está longe sua realização. O que há de mais forte, no entanto, é o ideal dessa sociedade no imaginário social.
Setores da esfera pública online:
- e - governments, onde representantes do  governo interagem com os cidadãos e onde informações sobre a administração eos serviços do governo estão disponíveis para consulta.
- O domínio do ativismo, onde as discussões são enquadradas  por organizações e manejadas para gerarem intervenções políticas. Esse domínio inclui os políticos parlamentares, grupos políticos estabilizados na longa luta por algum interesse e os novos grupos de militantes políticos.
- A variedade de fóruns políticos onde diferentes visões são compartilhadas e a deliberação acontece. É o setor paradigmático da esfera pública na Internet.
- O domínio parapolítico, onde tópicos sociais e culturais que tenham a ver com interesses comuns e/ou identidades coletivas são abordados.Aqui a ação política não é explícita, mas existe como potencial.
- O domínio do jornalismo, que inclui tanto as grandes empresas de notícias que foram para o online quanto as organizações de notícias surgidas na Internet e aos sites pessoais, conhecidos como blogs.
"Existe uma vida política em extensão na Intenet, que é principalmente uma extenção da vida política offline". Margolis and Resnick (2000, p. 14)
Limites para a democracia deliberativa:
- Pesquisas recentes mostraram que discussões online nem sempre se encaixam nos ideiais da democracia deliberativa. Discuros nem sempre são racionais, tolerância para com aqueles que defendem opiniões diferentes falta muitas vezes, e as formas de interação não são sempre civis.( característica que distingue as discussões no ciberespaço para as discussões presenciais- pois esse tipo de coisa também acontece em assembleias, por exemplo- é a falta de tempo para ouvir as opiniões alheias e apreciá-las).
Pontos positivos:
- O estudo comparativo de Tsaliki que analisou foruns da Grécia, da Holanda e da Grã- Bretanha constatou que na Internet a discussão política se apresentava em níveis satisfatórios. Uma das consequências positivas da migração das discussões políticas para a Internet é a participação de cidadãos que não se sentiriam confortáveis em debater em uma situação presencial.A Internet, portanto, aumenta as possibilidades de participação.
O contato com ideias, visões políticas, grupos de discussão aumenta o sentido de democracia tanto a nível individual quanto a nível coletivo.
Internet, Public Spheres, and Political Communication, Peter Dahlgren

Opiniões de internautas (matéria da Carta Capital sobre páginas no Facebook que ironizam políticos).
A artilharia política no Facebook
por Renan Truffi e Rodrigo Martins — publicado 27/05/2014 08:39, última modificação 27/05/2014 17:42

"Eu acho que a internet não terá esse papel tão importante que tantos falam.O conteúdo é tão bélico, furibundo, parcial e intransigente que acaba se anulando.Ou no máximo ficam falando para ovelhas já catequisadas.Não há debates de idéias, só ataques.
Pena."- postado em 27/05

"Foi extremamente importante a entrada da internet no assunto pois antes nunca ninguem discutia politica, a maior parte do povo ficava totalmente isolado do assunto, era praticamente um tabu. Ninguem sabia o que estava ocorrendo no senado, havia muita pouca participacao, muito menor ainda entre os jovens.Agora cada um tem acesso as informacoes e pode filtrar o que eh interessante ou porcaria falsa. Conhecemos melhor nossos candidatos, nao dependemos apenas das falas que aparecem na TV.Este fenomeno eh puramente consequencia da insatisfacao das pessoas com os governos."- postado em 27/05

"O eleitor e o mundo dos problemas são reais, não virtuais! Se não tivermos maturidade intelectual e cívica para distinguir e separar este paralelismo em nossas vidas e se nos encantarmos tanto com este "perfeito" mundo "onírico-digital-eletrônico" a ponto de tentarmos trazê-lo para a esfera mais sólida cá embaixo, penso então que as calçadas continuarão esburacadas pelos séculos assim como a situação da saúde, da educação, da infraestrutura e distribuição de renda. Se o eleitor se deixar seduzir apenas pelos cantos de sereia à esquerda ou à direita no Facebook, Twitter e outras porcarias só denotará que realmente nós, enquanto sociedade, estaremos fingindo que participamos dos problemas e das soluções deste país e o governo eleito, reciprocamente, também fará sua parte, ou seja... nada! O eleitor, o cidadão, o ser real deste plano, tem que se preocupar muito mais com o que ocorre (ou não) no seu quarteirão, no seu quadrado, do que com o que ocorre além da tomada elétrica e cabos de rede do seu computador. Penso ser muito mais importante conhecer e conversar (fisicamente) com o síndico do seu condomínio, ter acesso ao possível seu candidato a vereador, seu congressista do que perder seu tempo partidarizando e compartilhando publicações mentirosas financiadas por este ou aquele partido, pois na verdade, o que querem mesmo é eleger ou destituir candidatos simplesmente usando muito mais a mentira, a fofoca e a denúncia infundada como a maior ferramenta, apostando na imaturidade e insensatez do cidadão comum, do que na produção de propostas factíveis e reais programas de governo, e isto não produz nenhum efeito benéfico para a sociedade que precisa sim madurar e ter consciência que o governo lhe serve e não o contrário."- postado em 27/05