sexta-feira, 25 de abril de 2014

Mimeses enevoadas



   O sol impressionista nasce. No ano de 1872 o pintor francês Claude Monet termina  essa que seria a obra inaugural do movimento impressionista. L' impression soleil levant é considerado marco da experiência impressionista pelas inovações trazidas tanto na técnica quanto na compreensão da imagem.  Nas palavras do próprio Monet, " A paisagem não passa de uma impressão instantânea". A representação pictórica de imagens reais no Impressionismo- como o próprio nome sugere- baseia-se na impressão, ou seja, na percepção visual. A imagem é portanto compreendida na relação entre os objetos e o olho humano; não importa buscar a representção fidedigna e detalhada das coisas,  e sim pintar as coisas tal como o olho humano as recebe no instante. Longe da pintura acadêmica desde 1862, Monet dedicou-se à técnica de pintar o efeito das luzes com rápidas pinceladas, ensinada por Charles Gleyer. A técnica inovadora é a base da pintura impressionista.

  Junto a Monet, Pierre-Auguste Renoir inaugura o movimento impressionista na célebre exposição de 1874. Organizada em um salão alternativo, foi muito mal recebida pela crítica. Um desses críticos, Louis Leroy,escreveu em sua resenha " Exibição dos Impressionistas", primeira a usar a expressão "impressionistas":  "Um papel de parede é mais bem acabado do que a paisagem marítma", em referência ao quadro inaugural de Monet. Renoir, outro aluno de Charles Gleyer, expôs obras como "A bailarina". Assim como essa pintura, a maior parte das obras de Renoir representa cenas do cotidiano parisiense. A imagem feminina também é constante em seus quadros, o que talvez tenha a ver com a delicadez da própria técnica impressionista.

 "Margens do Sena em Argenteuil", de Édouard Manet, foi também exposta em 1874. A escolha por pintar as figuras humanas de costas, contemplando a paisagem, é muito característica nas obras impressionistas. Na verdade, a própria técnica empregada é responsável por criar cenas e figuras que parecem distantes, e até mesmo melancólicas. As pinturas impressionistas são como uma contemplação de si mesmas. Se em um primeiro momento a técnica e o resultado impressionistas não agradarm aos críticos, o movimento Impressionista é até hoje muito impactante aos olhos. A falta de clareza e uma certa aproximação com a imagem onírica fazem os quadros impressionistas penetrarem profundamente no universo imagético e subconsciente do ser humano.

   Exemplo máximo da técnica do pontilhismo , "O castelo dos papas", de Paul Signac, foi finalizado em 1900, quando o Impressionismo já deixara de ser "arte menor". Sigmac, que aprendera a técnica pontilhista com Seurat, foi um dos maiores impulsionadores do Neo- Impressionismo. Nessa pintura ficam claros os pontos que juntos formam a imagem. A ausência total de contorno definido é superada pela sabedoria cromática dos impressionistas. A cor é, assim, elemento mais que fundamental na constituição da imagem.

  Maior expoente do Impressiosmo no Brasil, o ítalo- brasileiro Eliseu Visconti recebe em 1892 o primeiro prêmio de viagem ao exterior concedido pela República, viajando no ano seguinte para a França. Lá, ele é admitido na  École nationale supérieure des beaux-arts, mas a abandona para ingressar na  École normale d'enseignement du dessin. Dessas escolas traz influências do impressionismo,do simbolismo e da art nouveau. Em 1901, Visconti organiza sua primeira exposição individual na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, trazendo óleos da França. Em 1920 regressa definitivamente ao Brasil e, inspirado pela luminosidade e cores das paisagens de Teresópolis, cria um impressionismo próprio.

  O impressionismo no Brasil, tardio e pouco expressivo, contou com poucos representantes, entre eles, além de Visconti, Timóteo da Costa. Ingressou na Escola Nacional de Belas Artes por volta de 1894 e em 1907, conquistou o prêmio de viagem à Europa na Exposição Geral de Belas Artes, seguindo então para Paris. De seu contato com artistas franceses nasceu a inspiração impressionista. Suas obras, assim como as de Visconti, retratavam cenas bastante europeizadas, não contribuindo assim para uma representação própria do cotidiano brasileiro. Assim, os artistas de influência impressionista brasileiros, ao contrário dos primeiros impressionistas, estavam ligados à arte acadêmica, de valores tradicionais.




domingo, 13 de abril de 2014



                                       
NOME DO ALMANAQUE: Florence
FORMATO ABERTO: 40 x 28 cm  / FORMATO FECHADO: 20 x 28 cm
MIOLO: 48 páginas
SINOPSE:
Artistas e profissionais do universo audiovisual decidiram montar um almanaque que refletisse a preponderância da Imagem na vida moderna.Na presente edição, comemorando seus dez anos de existência, o almanque traça um panorama acerca das transformações da Imagem a partir do surgimento da fotografia.Dirigido principalmente àqueles interessados nas diferentes vertentes da produção da Imagem, o almanaque, todavia, não se restringe a um público específico: como a visão é o sentido que predomina na vida moderna, todos podem se interessar por um material em cujo foco está a Imagem.
O almanaque é editado anualmente. A primeira edição foi publicada em junho de 2004. A fim de marcar seus dez anos de existência, a edição de 2014 é lançada no mesmo mês, junho.
ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO:
EQUIPE:                             ETAPAS:
Caio Pereira                   Redação de 1 matéria sobre Fotografia. Revisão das 2 matérias restantes sobre Fotografia. Revisão (R1) de uma matéria sobre Animação. Revisão (R1) de uma matéria sobre  Games. Diagramação de sua matéria. Revisão (R2) da seção de Artes Plásticas.
Carolina Cardozo    Redação de 1 matéria sobre Artes plásticas. Revisão das 2 matérias restantes sobre Artes plásticas. Revisão (R1) de 1 matéria sobre Animação. Revisão (R1) de 1 matéria sobre Games. Diagramação de sua matéria. Revisão (R2) da seção de Animação.
Guilherme Flores    Redação de  2 matérias sobre Animação e 1 matéria sobre Games. Diagramação de suas matérias. Propaganda 1.
Igor Vargas          Redação de 1 matéria sobre Animação e 2 matérias sobre Games. Diagramação de suas matérias. Propaganda 3.
Lalesca Fravoline            Redação de 2 matérias sobre Fotografia. Revisão (R1)  da matéria restante sobre Fotografia. Revisão de 1 matéria sobre Games. Diagramação de suas matérias. Revisão (R2) da seção de Games.
Liana Monteiro             Redação de 2 matérias sobre Artes Plásticas.Revisão (R1) da matéria restante sobre Artes Plásticas.Revisão (R1) de 1 matéria sobre Animação. Diagramação de sua matérias. Propaganda 2. Revisão (R2) da seção de Fotografia.

Planejamento Editorial
Distribuição de Conteúdo
Seções:
 1: Fotografia
 2: Artes Plásticas
 3: Animação
 4: Games
Matérias:
1:
2:
3:
4:
Propagandas:
P1- Debate Público sobre Arte Contemporânea.
Tamanho: 19 x 27 cm
P2- Agência Publicitária.
Tamanho 19 x 13,5 cm
P3-





quinta-feira, 27 de março de 2014

Jaguar


Parte I- Entrevista com Jaguar.

(Colorido normal: fala do Jaguar sem retextualização; Colorido em itálico: fala do Jaguar retextualizada).

Ou seja, zero álcool.Cerveja, não é que ela seja completamente sem álccol.Ela tem 0,05.Zero-cinco.Zero-cinco, zero-cinco é que chega um resultado expressivo né?

Agora, só cerveja sem álcool. Quer dizer, tem 0,5% de álcool. Ou seja, de 0,5 em 0,5 a gente pode chegar a um resultado expressivo!

A retextualização elimina as repetições prototípicas da fala, adequando o conteúdo à modalidade escrita, e prefere empregar outro tipo de indeterminação( "a gente", mais infornal ) a acrescentar um "se" para que a expressão " é que chega" se torne gramaticalmente correta. Como Jaguar é uma figura pública conhecida pela irreverência, o retextualizador optou por essa troca.Outra mudança feita pela retextualização é o acréscimo da preposição "a", corrigindo um problema de regência.Na fala, é muito comum a supressão de preposições(uso de cortadoras).O retextualizador também corrige a quantidade de álcool indicada por Jaguar e acrecenta o símbolo de porcentagem, com o objetivo de facilitar o entendimento do leitor.

Eu tive foi um tumor, um "che" no fígado.E foi exterminado.

Tive um carcinoma no fígado. Um “Che”. Segundo os exames, está extinto.

O jornalista aqui opta pela substituição da palavra " tumor" por um sinônimo."Carcinoma" é um termo científico e, como acontece muitas vezes com esse tipo de termo, é usado para minimizar a gravidade que a palavra "tumor" carrega.É, portanto, um eufemismo.Mais uma vez, na substituição de "exterminado" por "extinto" nota-se a tentativa de mitigar a gravidade da situação de se ter um câncer."Exterminar" tem um valor muito forte,pois o que deve ser exterminado é certamente muito danoso.O acréscimo de "segundo os exames" ratifica o caráter científico e médico que se tenta introduzir nas frases.A fim de não descaracterizar totalmente a fala de Jaguar, o retextualizador mantém a expressão irreverente que ele usa, "um che", interpondo- a entre as duas frases "científicas".

O me...o melhor período da minha vida foi o que eu tive preso, que eu acordava de manhã e dizia assim: " o que que eu tenho que fazer?Porra nenhuma!"

Eu subornava os guardinhas lá, bebia o dia inteiro, era muito diverti...era ótimo.E li,e tentei ler "Ulisses".Não consegui.

O quê? Fiquei três meses na Vila Militar. Nunca bebi tanto. Não é piada: foi a fase mais feliz da minha vida. Acordava e pensava: “O que tenho para fazer hoje? Porra nenhuma!” Subornava os guardas para ter cachaça. Bebia do gargalo e jogava num matagal atrás da cela. Consegui ler 60 páginas de “Ulisses”. Depois não retomei. “Ulisses” ou você lê na prisão ou não lê.

O retextualizador prefere reagrupar as ideias que vão surgindo no discurso de Jaguar de maneira que fiquem encadeadas como em uma narrativa da escrita .Na fala, o fluxo de ideias é diferente daquele da escrita.Além disso, acrescenta uma marca temporal" três meses" para deixar a narrativa mais clara para quem lê.
A opção por manter uma frase tão informal como "Porra nenhuma" é novamente justificada pelo caráter irreverente e bem-humorado do entrevistado.

Na retextualização, há a troca de "guardinhas" por "guardas", talvez porque "guardinhas" tenha no diminutivo uma ideia de desqualificação, que o jornalista deseja evitar.

Jaguar diz que tentou ler Ulisses e não conseguiu, o que, junto a elementos como a entonação de voz e gestos corporais, tem muito humor.No entanto, na escrita, onde ficam ausentes esses elementos, é necessário acrescentar informações- deduzidas pelo retextualizador- para que esse humor não se perca.("Ulisses, ou você lê na prisão ou não lê").

A verdade, essa, essa minha atividade política me,me ferrou.Eu fui demitido, a minha vida se ferrou, eu fiquei pobre...

Houve outras indenizações muito maiores do que as nossas.

Acho que isso foi a salvação da minha lavoura.

Eu não. Eu achei ótimo. Foi o que salvou minha vida. A ditadura me ferrou, perdi emprego, fiquei no miserê. Foi uma iniciativa da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), eu topei. Tem gente que é rica e recebeu o triplo.

Novamente o retextualizador encadeia as ideias de Jaguar de um outro modo, deixando o discurso mais claro na escrita.Algumas repetições são suprimidas e acrescenta-se informações para deixar mais precisas as afirmações de Jaguar- "Tem gente que é rica e recebeu o triplo"  e   ""Foi uma iniciativa da ABI(Associação Brasileira de Imprensa)".

Para manter a personalidade de Jaguar, a expressão " me ferrou" permanece e introduz-se a expressão despojada "no miserê", substituindo "pobre".Essas escolhas compensam a troca de "salvação da minha lavoura" por uma expressão mais sóbria.

O Ziraldo, que eu acho que ele fez errado...Numa, numa reunião da ABI esculhambou os que não tiveram coragem de enfrentar a ditadura.

No caso da indenização, o que estragou foi o Ziraldo. Tem horas em que é melhor ficar na moita. Ele foi à ABI e fez um auê, esculhambou todo mundo, disse que quem era contra estava botando o rabo entre as pernas. 

O jornalista reelabora a primeira frase de Jaguar, que mistura duas construções possíveis na escrita- "O Ziraldo, eu acho que ele fez errado" e "O Ziraldo quem fez errado".Para fugir da complicação que é decidir entre essas duas construções, o retextualizador elabora uma frase que as dispensa, mantendo, porém, o sentido da frase.O verbo "estragar" carrega em si o julgamento explícito na fala de Jaguar.

Para contextualizar, emprega-se" No caso da indenização".

Mais uma vez, a introdução de expressões como "fez um auê", "ficar na moita"e "botando o rabo entre as penas" justifica-se pela tentativa de manter o personagem Jaguar.

Eu não voto, nunca votei.Acho que a última vez que eu votei foi no Brizola.

Eu não voto! A última vez em que votei foi no Brizola.

Para eliminar um problema de coerência lógica, na retextualização, a fala" nunca votei" é suprimida.A outra alteração é a adição da preposição "em", adequando a frase à norma padrão.

O humor é um negócio pra fazer rir, ou pelo menos ser engraçado.O que predomina é uma coisa muito cerebral, assim.E você fica feliz da vida de ter entendido a...Então, eu achava os "Três Patetas" horrível, agora tô achando ótimo.Aquele negócio de dar a panela na cara do outro, outro tira o dente do outro, e por aí vai.

Mas, voltando ao humor, ele anda muito sério, muito inteligente, sofisticado, mesmo quando é bom. O pessoal não se preocupa em fazer rir. A gente se sente feliz da vida quando consegue entender a piada. Por isso eu mudei. Detestava os Três Patetas. Hoje, adoro aquela coisa de martelada na cabeça, panelada na cara, dente arrancado. É o suprassumo.

Primeiramente, a fim de manter certa ordem na versão escrita da entrevista, é adicionada a oração" voltando ao humor".

O retextualizador também altera o encadeamento de ideias para que a narrativa de Jaguar se torne mais inteligível aos leitores.A substituição de "cerebral" por "inteligente" e a colocação de "sofisticado", que sintetiza e esclarece a opinião de Jaguar, são aspectos que demonstram a tentativa de tornar mais claras e compreensíveis as ideias do entrevistado.

Na parte em que Jaguar fala sobre os "Três Patetas, como mecanismo de coesão, o retextualizador introduz a oração"Por isso eu mudei".Desse modo, as frases de Jaguar ficam mais costuradas.Além disso, a retextualização escolhe transformar os verbos que Jaguar usa em substantivos, deixando a escrita mais organizada.

O dia que eu parar de trabalhar, e não posso parar porque não tenho carteira assinada, essas coisas, nada.Não tô...Fundo de Garantia, não tenho nada,entendeu?

Nunca tive dinheiro, plano de saúde, carteira assinada. 

A retextualização aqui funciona de modo a sintetizar o dito por Jaguar.

Eu leio pelo menos três jornais por dia.

Sou viciado em jornal de papel. Leio três por dia.

Julgando três uma quantidade muito grande de jornal para se ler em um dia, o retextualizador emprega o adjetivo "viciado", deixando mais leve e informal a fala de Jaguar.O adjetivo também serve para trazer maior relevo à informação dada pelo entrevistado.

A menina que...eu assinei lá o... cartão de crédito, né, "Jaguar, é?", ela falou, "O cartunista, Jaguar?"Eu falei: "É.Como é que cê sabe que eu sou cartunista?" Como é que você sabe que esse velhinho aqui é um cartunista?Ela falou: "Eu sou caixa de supermercado, mas aprecio a cultura!"(risos)Achei tão bonitinho, rapaz.Cartunista...

Uma caixa de supermercado outro dia viu minha assinatura e perguntou: “Jaguar, o cartunista?” Eu disse: “Como é que você sabe?” E ela: “Eu posso ser humilde, mas me interesso por cultura.” Eu achei tão bonitinho!

O retextualizador diminui o volume de texto substituindo por expressões sintéticas longas sentenças.Por exemplo, " a menina que eu assinei lá o cartão de crédito" é a caixa de supermercado. É possível ver também substituições ideológicas quando ele troca" caixa de supermercado" por "humilde". Está implícito que uma caixa de supermercado é uma mulher humilde.Na verdade, é possível inferir isso também quando da ideia de "apreciar a cultura".Apesar de ser caixa de supermercado, ou seja, pessoa humilde, ela aprecia (ou se interessa pela) a cultura.