Parte I- Entrevista com Jaguar.
(Colorido normal: fala do Jaguar sem retextualização; Colorido em itálico: fala do Jaguar retextualizada).
Ou seja, zero álcool.Cerveja, não é que ela seja completamente sem álccol.Ela tem 0,05.Zero-cinco.Zero-cinco, zero-cinco é que chega um resultado expressivo né?
Agora, só cerveja sem álcool. Quer dizer, tem 0,5% de álcool. Ou seja, de 0,5 em 0,5 a gente pode chegar a um resultado expressivo!
A retextualização elimina as repetições prototípicas da fala, adequando o conteúdo à modalidade escrita, e prefere empregar outro tipo de indeterminação( "a gente", mais infornal ) a acrescentar um "se" para que a expressão " é que chega" se torne gramaticalmente correta. Como Jaguar é uma figura pública conhecida pela irreverência, o retextualizador optou por essa troca.Outra mudança feita pela retextualização é o acréscimo da preposição "a", corrigindo um problema de regência.Na fala, é muito comum a supressão de preposições(uso de cortadoras).O retextualizador também corrige a quantidade de álcool indicada por Jaguar e acrecenta o símbolo de porcentagem, com o objetivo de facilitar o entendimento do leitor.
Eu tive foi um tumor, um "che" no fígado.E foi exterminado.
Tive um carcinoma no fígado. Um “Che”. Segundo os exames, está extinto.
O jornalista aqui opta pela substituição da palavra " tumor" por um sinônimo."Carcinoma" é um termo científico e, como acontece muitas vezes com esse tipo de termo, é usado para minimizar a gravidade que a palavra "tumor" carrega.É, portanto, um eufemismo.Mais uma vez, na substituição de "exterminado" por "extinto" nota-se a tentativa de mitigar a gravidade da situação de se ter um câncer."Exterminar" tem um valor muito forte,pois o que deve ser exterminado é certamente muito danoso.O acréscimo de "segundo os exames" ratifica o caráter científico e médico que se tenta introduzir nas frases.A fim de não descaracterizar totalmente a fala de Jaguar, o retextualizador mantém a expressão irreverente que ele usa, "um che", interpondo- a entre as duas frases "científicas".
O me...o melhor período da minha vida foi o que eu tive preso, que eu acordava de manhã e dizia assim: " o que que eu tenho que fazer?Porra nenhuma!"
Eu subornava os guardinhas lá, bebia o dia inteiro, era muito diverti...era ótimo.E li,e tentei ler "Ulisses".Não consegui.
O quê? Fiquei três meses na Vila Militar. Nunca bebi tanto. Não é piada: foi a fase mais feliz da minha vida. Acordava e pensava: “O que tenho para fazer hoje? Porra nenhuma!” Subornava os guardas para ter cachaça. Bebia do gargalo e jogava num matagal atrás da cela. Consegui ler 60 páginas de “Ulisses”. Depois não retomei. “Ulisses” ou você lê na prisão ou não lê.
O retextualizador prefere reagrupar as ideias que vão surgindo no discurso de Jaguar de maneira que fiquem encadeadas como em uma narrativa da escrita .Na fala, o fluxo de ideias é diferente daquele da escrita.Além disso, acrescenta uma marca temporal" três meses" para deixar a narrativa mais clara para quem lê.
A opção por manter uma frase tão informal como "Porra nenhuma" é novamente justificada pelo caráter irreverente e bem-humorado do entrevistado.
Na retextualização, há a troca de "guardinhas" por "guardas", talvez porque "guardinhas" tenha no diminutivo uma ideia de desqualificação, que o jornalista deseja evitar.
Jaguar diz que tentou ler Ulisses e não conseguiu, o que, junto a elementos como a entonação de voz e gestos corporais, tem muito humor.No entanto, na escrita, onde ficam ausentes esses elementos, é necessário acrescentar informações- deduzidas pelo retextualizador- para que esse humor não se perca.("Ulisses, ou você lê na prisão ou não lê").
A verdade, essa, essa minha atividade política me,me ferrou.Eu fui demitido, a minha vida se ferrou, eu fiquei pobre...
Houve outras indenizações muito maiores do que as nossas.
Acho que isso foi a salvação da minha lavoura.
Eu não. Eu achei ótimo. Foi o que salvou minha vida. A ditadura me ferrou, perdi emprego, fiquei no miserê. Foi uma iniciativa da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), eu topei. Tem gente que é rica e recebeu o triplo.
Novamente o retextualizador encadeia as ideias de Jaguar de um outro modo, deixando o discurso mais claro na escrita.Algumas repetições são suprimidas e acrescenta-se informações para deixar mais precisas as afirmações de Jaguar- "Tem gente que é rica e recebeu o triplo" e ""Foi uma iniciativa da ABI(Associação Brasileira de Imprensa)".
Para manter a personalidade de Jaguar, a expressão " me ferrou" permanece e introduz-se a expressão despojada "no miserê", substituindo "pobre".Essas escolhas compensam a troca de "salvação da minha lavoura" por uma expressão mais sóbria.
O Ziraldo, que eu acho que ele fez errado...Numa, numa reunião da ABI esculhambou os que não tiveram coragem de enfrentar a ditadura.
No caso da indenização, o que estragou foi o Ziraldo. Tem horas em que é melhor ficar na moita. Ele foi à ABI e fez um auê, esculhambou todo mundo, disse que quem era contra estava botando o rabo entre as pernas.
O jornalista reelabora a primeira frase de Jaguar, que mistura duas construções possíveis na escrita- "O Ziraldo, eu acho que ele fez errado" e "O Ziraldo quem fez errado".Para fugir da complicação que é decidir entre essas duas construções, o retextualizador elabora uma frase que as dispensa, mantendo, porém, o sentido da frase.O verbo "estragar" carrega em si o julgamento explícito na fala de Jaguar.
Para contextualizar, emprega-se" No caso da indenização".
Mais uma vez, a introdução de expressões como "fez um auê", "ficar na moita"e "botando o rabo entre as penas" justifica-se pela tentativa de manter o personagem Jaguar.
Eu não voto, nunca votei.Acho que a última vez que eu votei foi no Brizola.
Eu não voto! A última vez em que votei foi no Brizola.
Para eliminar um problema de coerência lógica, na retextualização, a fala" nunca votei" é suprimida.A outra alteração é a adição da preposição "em", adequando a frase à norma padrão.
O humor é um negócio pra fazer rir, ou pelo menos ser engraçado.O que predomina é uma coisa muito cerebral, assim.E você fica feliz da vida de ter entendido a...Então, eu achava os "Três Patetas" horrível, agora tô achando ótimo.Aquele negócio de dar a panela na cara do outro, outro tira o dente do outro, e por aí vai.
Mas, voltando ao humor, ele anda muito sério, muito inteligente, sofisticado, mesmo quando é bom. O pessoal não se preocupa em fazer rir. A gente se sente feliz da vida quando consegue entender a piada. Por isso eu mudei. Detestava os Três Patetas. Hoje, adoro aquela coisa de martelada na cabeça, panelada na cara, dente arrancado. É o suprassumo.
Primeiramente, a fim de manter certa ordem na versão escrita da entrevista, é adicionada a oração" voltando ao humor".
O retextualizador também altera o encadeamento de ideias para que a narrativa de Jaguar se torne mais inteligível aos leitores.A substituição de "cerebral" por "inteligente" e a colocação de "sofisticado", que sintetiza e esclarece a opinião de Jaguar, são aspectos que demonstram a tentativa de tornar mais claras e compreensíveis as ideias do entrevistado.
Na parte em que Jaguar fala sobre os "Três Patetas, como mecanismo de coesão, o retextualizador introduz a oração"Por isso eu mudei".Desse modo, as frases de Jaguar ficam mais costuradas.Além disso, a retextualização escolhe transformar os verbos que Jaguar usa em substantivos, deixando a escrita mais organizada.
O dia que eu parar de trabalhar, e não posso parar porque não tenho carteira assinada, essas coisas, nada.Não tô...Fundo de Garantia, não tenho nada,entendeu?
Nunca tive dinheiro, plano de saúde, carteira assinada.
A retextualização aqui funciona de modo a sintetizar o dito por Jaguar.
Eu leio pelo menos três jornais por dia.
Sou viciado em jornal de papel. Leio três por dia.
Julgando três uma quantidade muito grande de jornal para se ler em um dia, o retextualizador emprega o adjetivo "viciado", deixando mais leve e informal a fala de Jaguar.O adjetivo também serve para trazer maior relevo à informação dada pelo entrevistado.
A menina que...eu assinei lá o... cartão de crédito, né, "Jaguar, é?", ela falou, "O cartunista, Jaguar?"Eu falei: "É.Como é que cê sabe que eu sou cartunista?" Como é que você sabe que esse velhinho aqui é um cartunista?Ela falou: "Eu sou caixa de supermercado, mas aprecio a cultura!"(risos)Achei tão bonitinho, rapaz.Cartunista...
Uma caixa de supermercado outro dia viu minha assinatura e perguntou: “Jaguar, o cartunista?” Eu disse: “Como é que você sabe?” E ela: “Eu posso ser humilde, mas me interesso por cultura.” Eu achei tão bonitinho!
O retextualizador diminui o volume de texto substituindo por expressões sintéticas longas sentenças.Por exemplo, " a menina que eu assinei lá o cartão de crédito" é a caixa de supermercado. É possível ver também substituições ideológicas quando ele troca" caixa de supermercado" por "humilde". Está implícito que uma caixa de supermercado é uma mulher humilde.Na verdade, é possível inferir isso também quando da ideia de "apreciar a cultura".Apesar de ser caixa de supermercado, ou seja, pessoa humilde, ela aprecia (ou se interessa pela) a cultura.